Ponte Salvador-Itaparica ameaça territórios ancestrais e modos de vida tradicionais, denunciam comunidades

Lideranças indígenas, quilombolas, povos de terreiro, pescadores e marisqueiras apontam ausência de consulta popular, risco de expulsão territorial e impactos sobre patrimônios culturais da Ilha de Itaparica

O avanço do projeto da Ponte Salvador-Itaparica tem provocado crescente mobilização entre comunidades tradicionais da Baía de Todos os Santos. Lideranças indígenas, quilombolas, povos de terreiro, pescadores, marisqueiras e movimentos sociais denunciam que a obra vem sendo conduzida sem diálogo efetivo com os territórios historicamente afetados e alertam para riscos profundos de gentrificação, racismo ambiental, destruição de ecossistemas e apagamento cultural.

As denúncias ganharam força durante debates públicos, audiências no Ministério Público Federal e encontros organizados por organizações populares da Bahia, onde representantes das comunidades afirmaram que o empreendimento ameaça diretamente modos de vida ancestrais mantidos há séculos na Ilha de Itaparica.

Para os povos tradicionais, o debate sobre a ponte não se resume à mobilidade ou infraestrutura. Trata-se da defesa da permanência territorial, da memória coletiva e da continuidade dos saberes tradicionais.

Segundo lideranças presentes nas audiências públicas, um dos principais problemas do processo é a ausência de consulta prévia, livre e informada às comunidades tradicionais, direito garantido pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da qual o Brasil é signatário.

Representantes indígenas Tupinambá da Ilha de Itaparica afirmam que a resistência à ocupação dos territórios antecede o próprio projeto da ponte. Durante audiência pública realizada pelo Ministério Público Federal, lideranças denunciaram que os processos chamados de “mitigação” têm sido apresentados como mecanismos de compensação econômica, sem considerar os impactos culturais, espirituais e identitários provocados pela obra.

Comunidades de matriz africana também denunciam ameaças diretas aos espaços sagrados. Terreiros tradicionais da Ilha de Itaparica apontam o crescimento da especulação imobiliária, o aumento da pressão fundiária e os riscos de deslocamento forçado das populações negras tradicionais da região.

Entre os territórios ameaçados está o Omo Ilê Agboulá, reconhecido como patrimônio cultural brasileiro e considerado um dos mais antigos terreiros de culto aos ancestrais Egungun no país. Lideranças locais alertam que mais de uma centena de espaços religiosos tradicionais podem ser afetados direta ou indiretamente pela reconfiguração territorial provocada pelo empreendimento.

Além dos impactos culturais e religiosos, pescadores, marisqueiras e comunidades costeiras denunciam possíveis danos ambientais à Baía de Todos os Santos, incluindo alterações nos manguezais, nas áreas de pesca artesanal e nos ciclos naturais que garantem a subsistência de centenas de famílias.

Especialistas e movimentos sociais também questionam o modelo de desenvolvimento proposto pelo projeto. Professores universitários, organizações populares e representantes comunitários argumentam que grandes obras de infraestrutura historicamente aprofundam desigualdades sociais, aceleram processos de expulsão territorial e beneficiam prioritariamente setores econômicos ligados à especulação imobiliária e ao capital privado.

Diante desse cenário, o Instituto da Memória Brasil Solo Ancestral vem fortalecendo iniciativas de cartografia social, documentação territorial e salvaguarda dos saberes ancestrais na Ilha de Itaparica. A proposta é construir mecanismos de proteção da memória coletiva das comunidades tradicionais por meio de tecnologias da memória, registros comunitários, mapeamento dos territórios sagrados e fortalecimento das narrativas produzidas pelos próprios povos tradicionais.

As ações integram estratégias de preservação cultural e defesa territorial desenvolvidas em parceria com lideranças locais, anciãos, juventudes tradicionais e comunidades de terreiro da região.

Para as comunidades mobilizadas, discutir a ponte é discutir o direito de continuar existindo em seus próprios territórios.

“Não se trata apenas de uma obra. Estamos falando da permanência dos nossos modos de vida, dos nossos ancestrais, da nossa relação com a terra, com o mar e com a memória”, afirmam lideranças presentes nos encontros públicos realizados em Salvador e na Ilha de Itaparica.