Projeto inédito no Brasil propõe preservar a memória ancestral do culto Egungun através de acervo histórico, cartografia territorial, relatos orais e salvaguarda comunitária
A Ilha de Itaparica passa a sediar a construção de um projeto histórico para a preservação da memória afro-brasileira. Começou oficialmente a estruturação do Museu Nacional da Tradição Egungun, iniciativa inédita no Brasil dedicada à preservação, documentação e salvaguarda da tradição ancestral dos cultos Egungun no território brasileiro.
Idealizado por Anane Simões Dantayo e Cláudio Alves, Ojé Basorun do Ilê Agboulá, o museu nasce a partir do aprofundamento das ações da antiga Casa da Memória Egungun, construída pelo Instituto da Memória Brasil Solo Ancestral junto às comunidades tradicionais da Ilha de Itaparica.
O projeto propõe construir um grande centro de memória viva da tradição Egungun, reunindo documentos históricos, fotografias, árvores genealógicas, oralidades, objetos litúrgicos, registros audiovisuais, relatos comunitários e narrativas ancestrais preservadas pelas famílias tradicionais do território.
Mais do que um espaço expositivo, o museu pretende funcionar como instrumento de proteção cultural, fortalecimento identitário e permanência territorial das comunidades tradicionais de matriz africana da Ilha de Itaparica.
A proposta do museu também inclui a construção da primeira linha do tempo sistematizada da tradição Egungun no Brasil, buscando traçar os caminhos históricos das famílias responsáveis pela manutenção do culto ancestral ao longo das gerações.
A iniciativa conta com participação direta de anciãos, sacerdotes, mulheres de posto, pesquisadores, jovens do território e equipes técnicas formadas por integrantes das próprias comunidades tradicionais. A construção coletiva do museu tem como princípio central o reconhecimento dos detentores dos saberes ancestrais como protagonistas do processo de preservação da memória.
Segundo os idealizadores, o projeto nasce diante da urgência de registrar conhecimentos historicamente preservados pela oralidade e frequentemente ameaçados pelo racismo religioso, pela especulação territorial e pelos processos contínuos de apagamento das tradições negras no Brasil.
A estruturação do Museu Nacional da Tradição Egungun também dialoga diretamente com as ações de cartografia social e proteção territorial desenvolvidas atualmente pelo Instituto da Memória Brasil Solo Ancestral na comunidade do Alto do Bela Vista, território tradicional Egungun há mais de 200 anos.
Entre as ações previstas estão:
- mapeamento dos terreiros tradicionais;
- registro das linhagens ancestrais;
- documentação audiovisual de relatos históricos;
- formação de jovens pesquisadores comunitários;
- digitalização de acervos;
- criação de circuito de memória ancestral;
- salvaguarda de objetos e documentos históricos;
- construção de banco de memória oral das famílias tradicionais.
O museu também pretende fortalecer o afroturismo de base comunitária na Ilha de Itaparica, criando percursos territoriais guiados pela memória ancestral dos povos Egungun e conectando visitantes às experiências culturais vividas pelas comunidades tradicionais.
Para as lideranças envolvidas, a criação do museu representa um marco histórico para a preservação das tradições afro-brasileiras e para o reconhecimento nacional da importância civilizatória dos povos de matriz africana.
“Estamos falando da preservação de uma tecnologia ancestral de memória que atravessou séculos de violência colonial e permaneceu viva através das famílias, dos terreiros e dos mais velhos. O museu nasce como espaço de proteção dessa continuidade”, afirmam integrantes da construção do projeto.
A expectativa é que o Museu Nacional da Tradição Egungun se torne referência nacional em preservação da memória afro-diaspórica, museologia comunitária e salvaguarda do patrimônio imaterial brasileiro, consolidando a Ilha de Itaparica como um dos principais territórios de memória ancestral do país.