Iniciativa realizada durante o ciclo festivo das Águas dos Eguns movimenta economia comunitária, valoriza saberes tradicionais e transforma memória em instrumento de fortalecimento territorial

Realizado anualmente no mês de setembro, durante o período das Águas dos Eguns, o Mercado da Memória Ancestral vem se consolidando como uma das principais ações de fortalecimento econômico e cultural das comunidades tradicionais do Barro Branco e Alto do Bela Vista, na Ilha de Itaparica.

Construído a partir da organização comunitária e da valorização dos saberes ancestrais, o projeto reúne pequenos empreendedores locais, baianas de acarajé, artesãos, cozinheiras tradicionais, vendedores populares, costureiras e trabalhadores autônomos do território para comercialização de produtos durante um dos períodos de maior circulação de pessoas na comunidade Egungun.

As duas últimas edições do Mercado da Memória Ancestral ampliaram significativamente a participação dos moradores e fortaleceram a geração de renda comunitária dentro de uma lógica de economia ancestral e circular, onde os próprios recursos movimentados durante os festejos permanecem no território.

Além da comercialização de alimentos, vestimentas, artesanato e produtos culturais, o espaço também se tornou um importante ponto de encontro entre memória, pertencimento e preservação histórica.

Um dos destaques das últimas edições foi a realização de exposições fotográficas comunitárias que retratam personagens fundamentais da tradição Egungun no Barro Branco e no Alto do Bela Vista. As exposições apresentaram imagens históricas, relatos orais e registros de anciãos, sacerdotes, mulheres de posto e figuras importantes para a consolidação da memória ancestral do território.

As fotografias expostas foram organizadas a partir de acervos familiares e registros comunitários preservados pelos moradores, criando uma experiência de reconhecimento coletivo da própria história local.

Para os organizadores, o Mercado da Memória Ancestral não se resume a uma feira comunitária. A proposta é construir um espaço permanente de valorização econômica dos povos tradicionais articulado à preservação cultural e ao fortalecimento da identidade negra ancestral da Ilha de Itaparica.

A iniciativa também surge como resposta aos processos históricos de invisibilização enfrentados pelas comunidades tradicionais, especialmente os territórios de matriz africana que, durante décadas, tiveram suas histórias apagadas dos registros oficiais.

Ao conectar geração de renda, memória coletiva e fortalecimento territorial, o Mercado da Memória Ancestral vem criando novas possibilidades para que jovens, mulheres e famílias tradicionais permaneçam no território sem romper com seus vínculos culturais e ancestrais.

O projeto integra as ações desenvolvidas pelo Instituto da Memória Brasil Solo Ancestral em parceria com lideranças comunitárias, coletivos culturais e moradores da região, fortalecendo estratégias locais de autonomia econômica, preservação patrimonial e salvaguarda dos saberes tradicionais.

Para a comunidade, preservar a memória também significa garantir condições dignas para que os próprios guardiões dessa história continuem existindo e vivendo dentro do território.

“Quando fortalecemos os empreendedores da comunidade, também fortalecemos os terreiros, as famílias tradicionais, os mais velhos e toda uma rede ancestral que sustenta esse território há gerações”, destacam organizadores do projeto.

Projeto inédito no Brasil propõe preservar a memória ancestral do culto Egungun através de acervo histórico, cartografia territorial, relatos orais e salvaguarda comunitária

A Ilha de Itaparica passa a sediar a construção de um projeto histórico para a preservação da memória afro-brasileira. Começou oficialmente a estruturação do Museu Nacional da Tradição Egungun, iniciativa inédita no Brasil dedicada à preservação, documentação e salvaguarda da tradição ancestral dos cultos Egungun no território brasileiro.

Idealizado por Anane Simões Dantayo e Cláudio Alves, Ojé Basorun do Ilê Agboulá, o museu nasce a partir do aprofundamento das ações da antiga Casa da Memória Egungun, construída pelo Instituto da Memória Brasil Solo Ancestral junto às comunidades tradicionais da Ilha de Itaparica.

O projeto propõe construir um grande centro de memória viva da tradição Egungun, reunindo documentos históricos, fotografias, árvores genealógicas, oralidades, objetos litúrgicos, registros audiovisuais, relatos comunitários e narrativas ancestrais preservadas pelas famílias tradicionais do território.

Mais do que um espaço expositivo, o museu pretende funcionar como instrumento de proteção cultural, fortalecimento identitário e permanência territorial das comunidades tradicionais de matriz africana da Ilha de Itaparica.

A proposta do museu também inclui a construção da primeira linha do tempo sistematizada da tradição Egungun no Brasil, buscando traçar os caminhos históricos das famílias responsáveis pela manutenção do culto ancestral ao longo das gerações.

A iniciativa conta com participação direta de anciãos, sacerdotes, mulheres de posto, pesquisadores, jovens do território e equipes técnicas formadas por integrantes das próprias comunidades tradicionais. A construção coletiva do museu tem como princípio central o reconhecimento dos detentores dos saberes ancestrais como protagonistas do processo de preservação da memória.

Segundo os idealizadores, o projeto nasce diante da urgência de registrar conhecimentos historicamente preservados pela oralidade e frequentemente ameaçados pelo racismo religioso, pela especulação territorial e pelos processos contínuos de apagamento das tradições negras no Brasil.

A estruturação do Museu Nacional da Tradição Egungun também dialoga diretamente com as ações de cartografia social e proteção territorial desenvolvidas atualmente pelo Instituto da Memória Brasil Solo Ancestral na comunidade do Alto do Bela Vista, território tradicional Egungun há mais de 200 anos.

Entre as ações previstas estão:

  • mapeamento dos terreiros tradicionais;
  • registro das linhagens ancestrais;
  • documentação audiovisual de relatos históricos;
  • formação de jovens pesquisadores comunitários;
  • digitalização de acervos;
  • criação de circuito de memória ancestral;
  • salvaguarda de objetos e documentos históricos;
  • construção de banco de memória oral das famílias tradicionais.

O museu também pretende fortalecer o afroturismo de base comunitária na Ilha de Itaparica, criando percursos territoriais guiados pela memória ancestral dos povos Egungun e conectando visitantes às experiências culturais vividas pelas comunidades tradicionais.

Para as lideranças envolvidas, a criação do museu representa um marco histórico para a preservação das tradições afro-brasileiras e para o reconhecimento nacional da importância civilizatória dos povos de matriz africana.

“Estamos falando da preservação de uma tecnologia ancestral de memória que atravessou séculos de violência colonial e permaneceu viva através das famílias, dos terreiros e dos mais velhos. O museu nasce como espaço de proteção dessa continuidade”, afirmam integrantes da construção do projeto.

A expectativa é que o Museu Nacional da Tradição Egungun se torne referência nacional em preservação da memória afro-diaspórica, museologia comunitária e salvaguarda do patrimônio imaterial brasileiro, consolidando a Ilha de Itaparica como um dos principais territórios de memória ancestral do país.

Iniciativa comunitária transforma o fim de ano em espaço de cuidado coletivo, cultura e valorização das infâncias negras no Barro Branco e Alto do Bela Vista

Há dois anos, as comunidades do Barro Branco e Alto do Bela Vista, na Ilha de Itaparica, vêm construindo uma nova forma de viver o período natalino. Organizado pelo Instituto da Memória Brasil Solo Ancestral em parceria com lideranças comunitárias, jovens e moradores do território, o Natal Ojo Irê nasceu como uma ação voltada à valorização das infâncias negras e à construção de experiências afetivas coletivas para crianças e adolescentes das comunidades tradicionais Egungun.

Mais do que uma festa de fim de ano, o Natal Ojo Irê se tornou um espaço de acolhimento, pertencimento e fortalecimento comunitário, reunindo brincadeiras, distribuição de presentes, apresentações culturais, música, atividades recreativas, alimentação e ações voltadas ao cuidado das crianças do território.

A iniciativa surge da compreensão de que datas amplamente impulsionadas pela lógica do consumo e do capitalismo frequentemente aprofundam desigualdades sociais e produzem sentimentos de exclusão entre crianças das periferias e comunidades populares.

Em muitos contextos, o período natalino acaba marcado pela ausência, pela frustração e pela impossibilidade de acesso às experiências socialmente associadas à infância. O Natal Ojo Irê busca justamente romper com essa lógica, criando um ambiente onde as crianças possam viver o afeto, a alegria e a celebração coletiva de forma digna e comunitária.

Ao longo das duas últimas edições, o projeto mobilizou moradores, coletivos culturais, apoiadores e voluntários da própria comunidade para garantir que centenas de crianças tivessem acesso a uma experiência construída a partir do cuidado, da escuta e da valorização da infância negra.

As atividades também fortalecem os vínculos comunitários entre famílias, juventudes, anciãos e lideranças tradicionais, reafirmando a importância do território como espaço de proteção coletiva.

Além das brincadeiras e presentes, o Natal Ojo Irê incorpora elementos culturais ligados à identidade da comunidade, aproximando as crianças das tradições locais e fortalecendo o sentimento de pertencimento ancestral desde a infância.

Para os organizadores, oferecer dignidade também significa garantir experiências afetivas positivas para crianças historicamente atravessadas pela exclusão social e pelo racismo estrutural.

“O que construímos não é apenas uma entrega de brinquedos. É a possibilidade dessas crianças se reconhecerem como dignas de afeto, de cuidado e de felicidade dentro do próprio território”, destacam integrantes da organização.

O Natal Ojo Irê integra as ações comunitárias desenvolvidas pelo Instituto da Memória Brasil Solo Ancestral voltadas à proteção das infâncias, fortalecimento territorial e valorização das culturas afro-brasileiras na Ilha de Itaparica.

A proposta é seguir ampliando o projeto nos próximos anos, fortalecendo uma rede comunitária onde memória, cuidado e ancestralidade caminham juntos na construção de futuros mais dignos para as novas gerações.